domingo, 27 de junho de 2010

A HORA DA PAZ



A Família, a Escola, a Igreja e o Estado formam a coluna vertebral da produção e da reprodução da violência, seja simbólica, física, dura ou de incivilidades. A família tem um papel central no processo de reprodução da ordem estabelecida, cujo processo é repassado para a escola, que elabora e impõe os princípios dessa reprodução, ao mesmo tempo a igreja reforça os papéis de dominação e o Estado reproduz a divisão arquetípica da dominação. Essa internalização é o centro do conceito de habitus elaborado por Bourdieu:

       O habitus é a mesmo tempo individual e coletivo, e Bourdieu enfatiza sua característica  de incorporação no agente, de tal forma que se torna o próprio agente, em um processo de interiorização, reproduzindo internamente nele as estruturas externas do mundo.(Gonçalves e Gonçalves,2010,p.51)

Mas será que a Escola sempre foi um locus de violência? Qual a diferença essencial, por exemplo, entre a Escola na Grécia antiga e a Escola de hoje?

A essência da Escola na Grécia Antiga está nas atividades que eram realizadas na Ágora, era o locus de livre trânsito entre iguais, esse é o sentido político essencial, que foi sendo perdido, na mesma proporção que os outros que estavam fora desse espaço, de liberdade de expressão, foram sendo inseridos, ou seja, quanto maior foi sendo a democratização do ensino menos sentido político foi sendo dado a esse espaço, houve portanto um desempoderamento dos que fazem o locus da Escola.

Para entender mais profundamente esse sentido essencial de espaço político que era e que deve ser a Escola, é preciso apreender o sentido de alguns conceitos gregos que formatavam o conceito de Ágora como locus da Escola. O primeiro é Isegoria, que era o direito que todos os cidadãos tinham de manifestar sua opinião política na Ágora; o segundo é Isologia, que era o direito ao conhecimento que permite domínio da palavra; e o terceiro Isonomia que era o direito de todos os cidadãos à atividade política, lembrando que esses conceitos sempre estavam atrelados ao conceito de Koinomia, que era a comunidade política no exercício da democracia.

Esses conceitos são tão importantes que a falta de exercício de um deles torna a pessoa menos empoderada do exercício de sua cidadania plena, daí advém o conceito de escravo para o grego da antiguidade, ou seja, qualquer um que não tivesse no pleno exercício de cada um desses direitos: “Quando os gregos diziam que escravos e bárbaros eram aneu logou, não dominavam a palavra, queriam dizer que eles se encontravam numa situação na qual era impossível a conversa livre.” (Arendt,2009,p.49).

Minha percepção no momento é que para recuperar a essência do locus da Escola, enquanto espaço político da comunidade, é necessário duas frentes de atuação simultânea, uma (re)construção do sujeito de direito, que seriam aqueles alijados do exercício de sua cidadania (Isegoria, Isologia e Isonomia na Koinomia) e um empoderamento daqueles que já exercitam e desenvolveram algum grau de consciência da importância do exercício de sua cidadania. E esse papel pode ser exercido através da educação em direitos humanos.

na última década de 1990 não se avançou praticamente nada na consciência de sujeito de direito. Os avanços são na área da educação em direitos humanos para defender e preservar o estado de direito, assim como na articulação da educação em direitos humanos com a construção da democracia, mas não na consciência de sujeito de direito. (Sacavino,2008,p.126)

Para Sacavino (2003) é através da Educação para o Empoderamento que pode haver a promoção desse sujeito de direito, de forma pessoal, através da autoconsciência e da autopercepção, e de forma social, através da afirmação como sujeitos e da tomada de decisões. A autora classifica ainda o empoderamento em suas dimensões básicas, em aspectos pessoais: cognitividade, criatividade, autoconceito, auto-estima e confiança; e em mecanismos sociais:participação e a organização. Ainda segundo a autora a geração desse empoderamento necessita de um espaço e de uma construção do poder local, essa junção seria a base da construção da democracia participativa e popular: ascendente, inclusiva, plural, simétrica e igualitária.

É importante deixar claro que o empoderamento individual e coletivo não exime o governo do dever de participar dessa construção:

       Se ninguém empodera ninguém, se o empoderamento é um processo que se gera através da combinação dessas duas dimensões referidas, o governo não pode gerar empoderamento. No entanto, desde o ponto da construção democrática, em nível governamental é importante gerar e direcionar políticas e ações que favoreçam processos de empoderamento em determinadas direções.(Sacavino, 2003,p.47)

            O locus da Escola é o espaço político do múltiplo, das divergências variadas que formam consensos através dos debates e do convencimento recíproco:


O sentido  da coisa política aqui(...) é os homens terem relações entre si em liberdade, para além da força, da coação e do domínio. Iguais com iguais que (...) regulamentavam todos os assuntos por meio da conversa mútua e do convencimento recíproco. A coisa  política entendida nesse sentido grego está, portanto, centrada em torno da liberdade, sendo liberdade entendida negativamente como o não-ser-dominado e não-dominar, e positivamente como um espaço que só pode  ser produzido por muitos, onde cada qual se move  entre iguais.(Arendt,2009,p.49).

            Para concluir,  já que o tema é a educação em direitos humanos como estratégia de reverter a situação da violência na escola, é importante resgatar o sentido grego do que produzia o locus da Ágora como espaço de educação política como instrumento de paz pública. As Horae (Horas) eram divindades consideradas alegóricas, porque passageiras, temporárias, pois personificavam o ano e as estações protetoras das plantas jovens, da infância e da juventude, e formavam uma trindade, portanto, indissociáveis, Eunomia, representando a ordem, a Diké, representando a justiça e a Eirene, representando a paz.(Jaeger,2010,p.99). Chama a atenção que uma das estátuas mais representativas da Pax grega era da deusa Eirene com Pluto nos braços, Pluto era o deus da riqueza, da abundância, da generosidade, que foi cegado por Zeus para que beneficiasse a todos sem distinção, pois Pluto só dava riqueza aos que considerava bons.

            Considerando a conjuntura histórica, política e econômica que o Brasil está hoje, é uma necessidade, e que deveria ser uma prioridade máxima, caso o país quisesse realmente alcançar um desenvolvimento econômico continuado com desenvolvimento humano e  social, que toda a sociedade se engajasse no resgate no espaço político da Escola, quebrando o ciclo de dominação e determinando que é chegada a Hora da Paz.




Referências:

1.ARAÚJO, Cinthia Monteiro. A educação em direitos humanos e o ensino de história:alianças possíveis. In:SACAVINO,Susana e CANDAU, Vera Maria . Educação em Direitos   Humanos: temas, questões e propostas.Petrópolis: DP ET Alli, 2008.p.145-163.
2.ARENDT, Hannah. Homens em tempos sombrios. São Paulo. Companhia das Letras,2008. 315p.
__O que é política? . Rio de Janeiro.Bertrand, 8ª ed.2009. 240p.
3. BORDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro. Bertrand, 13ª ed.2010. 322p.
4. JAEGER, Werner Wilhelm, Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo. WMFMartins Fontes, 5ª ed.2010. 1413p.
4. GONÇALVES, Nádia G.; GONÇALVES, Sandro A. Pierre Bourdieu: educação para além da reprodução. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.118p.

5.SACAVINO, Susana; CANDAU, Vera Lúcia. Educação em Direitos    Humanos: temas, questões e propostas.Petrópolis: DP ET Alli, 2008.165p.

__SACAVINO, Susana.Educação em direitos humanos e democracia. In: CANDAU, Vera Lúcia; SACAVINO, Susana. Educação em Direitos Humanos; construir democracia. Rio de Janeiro:DPeA,2003.

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