sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

EROS E PSIQUÊ: SEXO E AFETO.


Qual o efeito da noção-percepção de tempo-espaço nas decisões de sua vida?
Você já parou para refletir sobre seus conceitos de passado, presente, futuro e sempre? O que essas palavras representam pra você? Como você toma decisões a partir dos seus conceitos dessas palavras? Como você age e reage aos efeitos conceituais de tempo e espaço na sua vida?
Segundo Nilton Bonder , “O sempre é um “tempo” independente que não se localiza nem no passado, nem no presente e nem no futuro.” (Sobre Deus e o Sempre,p.143). Bonder trás esse conceito da Cabala, onde o presente é o mundo físico, o passado é o mundo emocional, o futuro é o mundo intelectual e o sempre é o mundo espiritual. Nossa grande dificuldade é reunir, unir novamente o presente ao sempre, enquanto adultos bombardeados por ilusões produzidas para nos deter no passado e no futuro. Ilusões essas produzidas por quem tira proveito econômico e político de todos nós.
Analisando com profundidade o passado e o futuro, não existem enquanto entes separados, eles fazem parte de uma corrente contínua passado-presente-futuro que deságua no verdadeiro tempo-espaço, o sempre. Só temos essa noção enquanto somos ainda bebês, “O tempo do bebê ainda é deformado pela proximidade com o Nada. Ele dorme a maior parte de seu dia e sua percepção do tempo é de que este é infinito. Para ele o tempo se mede por intensidades e não por comprimento. É possível que o tempo do sempre seja também mais uma medida de intensidades do que de sequências.(...) O tempo é uma perturbação da eternidade” (Bonder,p.40-41) É por causa das lembranças desses períodos de eternidade, de incursões no sempre que só nos sentimos inteiros, realmente vivos e felizes quando estamos no sempre.
Somente duas forças são capazes de nos reconectar com esse tempo do sempre, da eternidade, Eros e Psiquê, ou seja, a força erótica e a força do afeto que serão geradas nas relações entre Eros e Psiquê. Talvez seja essa a razão porque navegar na internet seja tão prazeroso, é a mesma busca que fazemos no mundo real, buscar relações, interagir, estamos em busca do sempre. “A verdade é que a Internet mistura os conceitos de tempo e espaço e dá preferência à conexão.(...) “Beijo” é a melhor palavra possível para tratar da questão da conectividade. O que é um beijo? É a tentativa física de criar uma interface. Duas faces se conectam e tentam passar (download) uma emoção que não conseguiriam passar sem a conexão física.” (Bonder,p.147-149)
Nossa busca quase que inconsciente, automática é por estarmos conectados, vivermos intensamente tudo a todo momento, e por isso todas as nossas sensações de infelicidade são provenientes da falta de conectividade, seja por Eros, pelo sexo, ou pela Psiquê, pelo afeto. Sem a sensação de que estamos sendo 100% afetados em 100% do tempo, nos sentimos infelizes. Essa meta, esse impulso compulsivo é impossível de ser cumprido, enquanto vivos, é dessa impossibilidade que somos explorados, pela oferta constante de “produtos” que aparentam nos colocar conectados o tempo todo, daí o sucesso e a busca por novidades e por artificialidades, seja tecnológicas ou sexuais. “Em particular no orgasmo ou em momentos eróticos especiais de nossa vida este portal de comunicação fica escancarado. Descobrimos um tempo que funde a realidade e derrete o agora, o antes e o depois.” (Bonder, p.75)
A existência nesse plano de espaço-tempo é determinado pela nossa capacidade de estarmos conectados e o que fazemos, realizamos enquanto conectados, essa é a razão da vida. “Queremos comunicar afeto e sermos correspondidos por afetos. Até mesmo Deus é um símbolo universal de afeto. Algo “se preocupa” ou “tem interesse” em mim neste cosmos. Esse sentimento não é apenas o efeito de uma carência ou de um desejo auto-realizado. É a própria razão de nossas vidas. O afeto é tudo que nos importa na existência.(...) Afinal esses são os mortos: aqueles que não se afetam e não são afetados pelos vivos.” (Bonder,p.154)
Afetar e sermos afetados, seja eroticamente por Eros, seja pelo afeto da Psiquê é que nos mantém vivos e querendo viver, mesmo que não saibamos exatamente o porquê de nossa existência. Logo, circunstâncias acontecerão que farão com que estejamos desconectados, excluídos de alguma área de nossa vida. “Se olharmos de perto veremos que o próprio tempo nada mais é do que uma medida de interações. O nosso tempo entra em “câmara lenta” quando estamos sendo profundamente afetados por algo; ou se torna eternamente tedioso quando não somos afetados. Nesse último o tempo voa e se perde quando não somos afetados, mas se torna eterno quando há afeto.(...) um evento afetivo permanece acontecendo sempre.(...) nossa memória é mais do que uma lembrança, ela reproduz virtualmente todos os momentos afetivos que já vivemos. Eles não são eventos do passado, mas eventos do sempre. Sua conectividade é tão intensa que eles passam à categoria da existência. "Ao ego é dado administrar um certo contrato de interatividade, uma encarnação. (...)Quando uma dada existência não consegue conter afeto, ela se decompõe com a função de reciclar e encontrar outra forma para conter este afeto.” (Bonder,p.154-155)



Qual a razão mais recorrente das falhas dos provedores e administradores de redes conectivas? Manutenção, nenhuma rede consegue ficar todo tempo conectado sem um mínimo de manutenção. Então não se desespere quando alguma área da sua vida repentinamente for desconectada. Perdeu o emprego? O parceiro(a)? seja o que for, estava na hora de uma manutenção, de mudanças,um questionamento e revisão dessas áreas desconectadas. Pare de preocupar-se “em quando” estará “conectado” de novo, e preocupe-se em questionar “o porquê” e o que “deve” ser feito para que a conexão com a realidade seja retomada, com certeza você esteve preso ao passado ou ao futuro e esqueceu do presente.

Um comentário:

  1. olá Jesse,

    Lembrei-me da obra de Thomas Mann-A Montanha Mágica. Este autor diz que o homem precisa ter muita leitura e muito tino.
    Parece-me que o ser humano precisaria levar a vida muito a sério para não perder-se em ilusões.
    Imagine que lemos em sala de aula a narrativa "Eros e Psique" e os nossos alunos desenharam ,apartir de ilustrações da arte greco-romana(escultura), o corpo humano nu. Fui acusada de utilizar material pornográfico em sala de aula pela Diretora, pelo coordenador pedagógico e acredite, pelo Conselho tutelar.
    Bom ler, nessas horas,o seu artigo,
    abraço

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